Antes das torneiras, chuveiros e vasos sanitários, manter o corpo e a casa limpos exigia água carregada à mão, bacias e uma rotina muito diferente da atual

Abrir a torneira, escovar os dentes, tomar um banho quente e dar descarga. Em poucos minutos, uma pessoa realiza hoje uma sequência de hábitos tão comuns que dificilmente pensa na infraestrutura necessária para que eles existam.

Para um morador de Jundiaí de boa parte do século XIX, porém, essa rotina seria praticamente irreconhecível.

Não havia chuveiro elétrico, evidentemente. Mas também não existiam, na maioria das casas, torneiras, vasos sanitários com descarga ou sequer um cômodo destinado exclusivamente ao banheiro como conhecemos atualmente.

E havia uma questão ainda mais básica: era preciso conseguir água.

A água estava no quintal — ou na rua

Registros históricos do município mostram que, antes da implantação do abastecimento, Jundiaí dependia de um sistema bastante rudimentar.

Em períodos mais antigos, a população recorria a bicas públicas. Posteriormente, os poços perfurados nos próprios quintais das residências tornaram-se uma das principais fontes de água potável.

Isso significava que a água necessária para beber, cozinhar, lavar roupas, limpar a casa e cuidar do próprio corpo precisava ser retirada do poço e transportada em recipientes.

O abastecimento de água em Jundiaí começou a ser implantado em 1881. A mudança, entretanto, não transformou todas as casas da noite para o dia.

Somente em 1899 seria inaugurado, no Anhangabaú, o primeiro reservatório de distribuição da cidade, abastecido com água proveniente da Serra do Japi.

Até então, higiene também era trabalho braçal.

E como se tomava banho?

A ausência do banheiro moderno não significa que as pessoas simplesmente não se lavassem.

No Brasil do século XIX, o banho já fazia parte dos hábitos da população, inclusive por influência de costumes indígenas incorporados desde o período colonial. A maneira de tomar banho, porém, podia ser bastante diferente da atual.

Em muitas residências, utilizavam-se bacias e recipientes com água. Quando se desejava água quente, ela precisava primeiro ser aquecida e transportada.

Uma pessoa podia lavar separadamente rosto, cabeça e outras partes do corpo ou realizar um banho mais completo utilizando bacias, jarras e outros recipientes.

Nas famílias de maior poder aquisitivo, banheiras e equipamentos mais sofisticados começaram a aparecer ao longo do século XIX. Eram, entretanto, um luxo muito distante do banheiro equipado que se tornaria comum no século seguinte.

O próprio conceito de banheiro como um cômodo permanente da residência, reunindo banho, lavatório e vaso sanitário, ainda estava em formação.

E quando dava vontade de ir ao banheiro?

Aqui a diferença em relação à vida atual ficava ainda maior.

Nas cidades paulistas do final do século XIX, eram comuns latrinas instaladas nos quintais, muitas vezes em pequenas construções separadas da residência — as populares “casinhas”.

Em locais ainda não atendidos por redes de esgoto, os resíduos podiam terminar em fossas.

Jundiaí não era exceção ao problema sanitário enfrentado pelas cidades daquele período. A própria história do saneamento municipal registra que os dejetos eram depositados em fossas e, em determinadas situações, o esgoto chegava a correr a céu aberto pelas ruas.

Dentro das casas também existiam soluções que hoje parecem pouco agradáveis.

Urinóis e vasos portáteis eram utilizados nas residências brasileiras do século XIX, principalmente durante a noite. Podiam permanecer sob a cama ou escondidos em móveis próprios e tinham de ser esvaziados posteriormente.

Não havia um botão capaz de fazer tudo desaparecer em segundos.

Água limpa perto de dejetos

A combinação de poços, fossas e ausência de redes adequadas criava outro problema: a contaminação.

No final do século XIX, médicos e autoridades sanitárias passaram a compreender cada vez melhor a relação entre água contaminada, dejetos e doenças.

Isso provocou uma verdadeira transformação urbana.

O que antes era simplesmente uma questão de mau cheiro começou a ser tratado também como problema de saúde pública. Fossas, latrinas, água para consumo e afastamento do esgoto passaram a ocupar cada vez mais a atenção das autoridades.

Jundiaí já discutia essas questões ainda no século XIX.

Um documento histórico preservado pela cidade ajuda a mostrar o tamanho da transformação.

Um mapa de 1893 mostra a mudança

A DAE mantém uma antiga “Planta geral da cidade de Jundiahy – rede dos encanamentos e esgoto”.

O documento registra a rede existente no final do século XIX e traz a antiga grafia “Jundiahy”, além de referências a encanamentos, hidrantes, válvulas e setores da rede de esgoto.

A planta original é datada de 1893 e posteriormente recebeu uma reprodução fiel.

É um retrato de uma cidade que começava a entrar na era do saneamento moderno.

Água limpa podia finalmente percorrer tubulações. Os resíduos poderiam ser afastados das residências sem depender exclusivamente das antigas soluções individuais.

E isso modificaria não apenas as ruas, mas o interior das casas.

O banheiro ainda era uma novidade

No Estado de São Paulo, a preocupação com higiene ganhou força extraordinária no final do século XIX.

O Código Sanitário estadual de 1894 estabeleceu exigências para instalações sanitárias. Latrinas deveriam utilizar materiais que permitissem limpeza, e sistemas com água e sifões passaram a fazer parte do novo padrão sanitário.

A transformação também alterou a arquitetura.

O lugar destinado às necessidades fisiológicas, antes frequentemente afastado da residência, começou lentamente a se aproximar e depois entrar definitivamente dentro das casas.

O banheiro moderno estava nascendo.

Nas residências mais ricas, as novidades chegaram primeiro. Nas mais simples, antigas práticas continuariam convivendo durante muito tempo com a modernização.

Limpo para os padrões de quem?

Há ainda uma armadilha quando olhamos para aquela época: imaginar que todos fossem simplesmente “sujos”.

Higiene é também um conceito histórico.

As pessoas se lavavam, trocavam roupas, utilizavam água, sabão e diferentes métodos de asseio. O que mudou profundamente foram a disponibilidade de água dentro das residências, os produtos utilizados, o conhecimento sobre microrganismos e doenças e, principalmente, a infraestrutura.

Para alguém acostumado a retirar água de um poço, aquecê-la e carregá-la até uma bacia, um banho exigia uma operação que hoje resolvemos girando dois registros.

Da mesma maneira, utilizar uma latrina no quintal ou um urinol durante a noite fazia parte de uma rotina doméstica que não causava o mesmo estranhamento que provocaria atualmente.

Uma revolução escondida dentro de casa

Quando se fala no desenvolvimento de Jundiaí no século XIX, é fácil lembrar da chegada da ferrovia, das indústrias e do crescimento provocado pelo café.

Mas outra revolução, bem menos fotografada, acontecia debaixo das ruas e dentro das residências.

Canos começaram a substituir baldes. A água deixou progressivamente o poço para chegar às torneiras. As fossas e o esgoto exposto começaram a dar lugar às redes subterrâneas. A antiga latrina se transformaria no vaso sanitário.

E o banheiro, um espaço que sequer existia da maneira atual em grande parte das casas, tornou-se indispensável.

Talvez um morador da Jundiaí de 1880 ficasse impressionado com automóveis, celulares e edifícios se pudesse visitar a cidade atual.

Mas provavelmente uma das maiores demonstrações de luxo estaria em um lugar muito mais simples.

Bastaria levá-lo até um banheiro, abrir uma torneira e dizer:

— Pode usar quanta água quiser. Ela chega sozinha.