Registros preservados pelo Arquivo Histórico mostram que indígenas, africanos e seus descendentes foram escravizados na antiga Jundiahy e também contam histórias de resistência e luta pela liberdade
Muito antes das ferrovias, das indústrias e da expansão urbana que transformaram Jundiaí, a antiga vila conviveu durante séculos com a escravidão.
Documentos preservados pelo Arquivo Histórico Professora Maria Angela Borges Salvadori permitem reconstruir parte desse período e mostram que a escravidão esteve profundamente inserida na formação econômica e social da cidade.
Nos primeiros tempos da colonização, a mão de obra escravizada na região era principalmente indígena. Em meados do século 18, porém, o número de indígenas e africanos submetidos à escravidão já seria semelhante. Na segunda metade daquele século, aumentou a presença de africanos escravizados, até que essa mão de obra passou a predominar.
Um livro guarda nomes de quase 300 anos atrás
Uma das peças mais impressionantes preservadas em Jundiaí é o Livro de Registros de Óbitos de Pessoas Escravizadas, que abrange o período entre 1744 e 1787.
O acervo municipal também reúne documentos sobre transações envolvendo pessoas escravizadas, diligências policiais, testamentos, inventários e registros relacionados à existência de quilombos e à resistência ao sistema escravista.
Um levantamento sobre a população da antiga Jundiahy em 1772 estima que aproximadamente 2,1 mil pessoas viviam no vasto território então pertencente à vila — muito maior que o município atual e abrangendo áreas que posteriormente deram origem a outras cidades da região. Os documentos registravam inclusive moradores escravizados das residências.
Escravidão também existia no centro da cidade
A escravidão não estava restrita às propriedades rurais.
Documentos pesquisados pelo Arquivo Histórico apontam inclusive a existência de locais de comercialização de pessoas escravizadas em Jundiaí. Um deles ficava na região da Ponte de Campinas, onde funcionava a estalagem do chamado Barão da Ponte. Segundo o Arquivo, foram preservados anúncios nos quais ele se oferecia para comercializar seres humanos. Há indicação de outro possível endereço na região da Rua do Rosário, mas essa localização ainda carece de comprovação definitiva.
O próprio pelourinho, símbolo do poder colonial e associado à aplicação pública de punições, esteve presente na Jundiahy do século 17. A referência histórica de sua localização corresponde à região da atual Praça Rui Barbosa, no Centro.
Resistência e luta pela liberdade
Mas os documentos preservados em Jundiaí não contam apenas a história dos escravizadores. Eles também revelam a resistência daqueles que buscavam a liberdade.
Há registros relacionados a quilombos na região. Uma documentação citada pelo Arquivo Histórico menciona, por exemplo, o pagamento feito em 1759 a um capitão do mato para capturar e matar um quilombola de Itupeva. Mais de um século depois, documentos continuavam registrando conflitos envolvendo comunidades de quilombolas na região de Jundiaí, Itupeva e Itatiba.
Outro episódio ocorreu em 1883. João Damásio dos Santos, que havia sido escravizado, conseguiu comprar sua própria liberdade e também a da mulher com quem pretendia se casar. Os dois se casaram na Matriz de Jundiaí, numa cerimônia acompanhada por banda musical, banquete e discursos abolicionistas. O acontecimento ganhou espaço em A Província de São Paulo, jornal que posteriormente se tornaria O Estado de S. Paulo.
Cinco anos depois, em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea extinguiu legalmente a escravidão no Brasil.
Os documentos que atravessaram os séculos permanecem hoje sob a guarda do Arquivo Histórico de Jundiaí. Mais do que registros administrativos antigos, eles ajudam a recuperar histórias de pessoas que viveram, trabalharam, resistiram e buscaram liberdade na cidade que começava a se formar.





