Empresa responsável pelo Claude montou laboratório físico nos Estados Unidos e trabalha para integrar inteligência artificial, robôs e equipamentos científicos; objetivo inclui acelerar pesquisas que podem levar a novos medicamentos

A inteligência artificial está começando a ultrapassar uma fronteira importante: sair do computador e participar de experimentos no mundo físico.

A Anthropic, empresa responsável pelo Claude, confirmou nesta sexta-feira (18) que mantém um laboratório de biologia na região da Baía de São Francisco, nos Estados Unidos. A estrutura permite que a companhia realize experimentos biológicos reais enquanto amplia seus investimentos em ciências da vida.

A iniciativa chama atenção porque aponta para uma nova etapa no uso da inteligência artificial na ciência. Em vez de apenas analisar artigos, bancos de dados e estruturas moleculares, sistemas de IA começam a ser integrados a equipamentos capazes de executar experimentos.

A Anthropic também desenvolve tecnologia para que o Claude possa coordenar instrumentos de laboratório e sistemas robotizados. A ideia, ainda em estágio inicial, é permitir ciclos nos quais a IA ajude a planejar uma experiência, acompanhe sua execução, analise os resultados e utilize essas informações para orientar os passos seguintes.

Na prática, seria algo próximo de:

problema científico → hipótese → experimento → resultado → análise pela IA → novo experimento.

A participação humana, no entanto, continua sendo considerada essencial pela empresa, tanto na definição das pesquisas quanto na supervisão e segurança dos experimentos.

Robôs trabalhando no laboratório

Um dos componentes dessa estratégia é o Model Hardware Standard (MHS), apresentado recentemente pela Anthropic. A tecnologia cria uma espécie de linguagem comum para que agentes de inteligência artificial consigam operar diferentes equipamentos físicos.

Entre os aparelhos previstos estão microscópios, manipuladores de líquidos e braços robóticos. Segundo a empresa, o sistema também pode coordenar vários instrumentos simultaneamente, modificar parâmetros de uma experiência em tempo real e, em determinadas situações, identificar e corrigir problemas de equipamentos.

A própria Anthropic descreve como objetivo futuro a criação de um mecanismo de “descoberta autônoma”: o cientista determina a questão biológica que deseja investigar e agentes de IA ajudam a coordenar as etapas físicas necessárias para encontrar respostas.

Isso não significa um laboratório totalmente entregue às máquinas. A tecnologia ainda está em desenvolvimento, e a companhia afirma que a supervisão humana permanece necessária.

Claude já ganhou uma versão voltada à ciência

A movimentação não começou agora.

Em junho, a Anthropic apresentou o Claude Science, uma plataforma criada especificamente para pesquisadores. O sistema reúne mais de 60 ferramentas e conexões especializadas em áreas como genômica, proteínas, biologia estrutural e química computacional.

O Claude Science pode consultar diferentes bases científicas, analisar grandes volumes de dados, trabalhar com estruturas tridimensionais de proteínas e moléculas e auxiliar na construção de experimentos e pesquisas.

Pesquisadores já utilizaram a plataforma em trabalhos envolvendo sequenciamento de RNA, planejamento de experimentos com CRISPR, previsão da estrutura de proteínas e química computacional.

Nesta semana, a Anthropic divulgou ainda resultados de um projeto no qual o Claude trabalhou na otimização de mais de 30 modelos computacionais usados para prever e projetar biomoléculas. Segundo a companhia, os modelos ficaram, em média, aproximadamente quatro vezes mais rápidos.

E onde entram os novos medicamentos?

É justamente aqui que a estratégia ganha outra dimensão.

A Anthropic afirma enxergar nas ciências da vida uma das maiores oportunidades de aplicação de inteligência artificial e pretende trabalhar inclusive em pesquisas pré-clínicas relacionadas a doenças raras e problemas considerados pouco atraentes comercialmente pela indústria farmacêutica.

Outra possibilidade estudada é acelerar pesquisas envolvendo alvos biológicos considerados “undruggable” — expressão utilizada para proteínas ou outros alvos tão difíceis de atingir que historicamente não resultaram em medicamentos eficazes.

A inteligência artificial poderia ajudar a pesquisar um número muito maior de possibilidades e selecionar candidatos mais promissores para testes físicos.

Existe, porém, uma distinção importante: a Anthropic esclareceu que seu novo laboratório não é dedicado especificamente à descoberta de medicamentos.

O laboratório faz parte de uma estratégia mais ampla de pesquisa biológica. Ao mesmo tempo, a companhia confirmou que pretende desenvolver programas pré-clínicos relacionados a medicamentos e vem ampliando fortemente sua atuação em ciências da vida.

IA não significa medicamento pronto

Apesar do potencial, existe uma enorme distância entre descobrir uma molécula promissora em laboratório e colocar um novo medicamento nas farmácias.

Uma substância precisa passar por diferentes etapas de pesquisa, testes de segurança e eficácia e, posteriormente, estudos clínicos envolvendo seres humanos. Muitos candidatos que parecem promissores nas fases iniciais acabam fracassando durante esse processo.

A Anthropic não está realizando ensaios clínicos e afirma que não pretende competir diretamente com empresas farmacêuticas e de biotecnologia que levam medicamentos até o mercado.

Portanto, ainda seria incorreto afirmar que o Claude está “criando remédios sozinho”.

A mudança importante é outra.

Até recentemente, a maior parte da inteligência artificial que chegou ao grande público trabalhava essencialmente no universo digital: textos, imagens, programação, cálculos e análise de dados.

Agora, sistemas de IA começam a ser conectados a instrumentos capazes de medir, manipular e experimentar o mundo físico.

Se essa integração avançar, um laboratório poderá realizar experiências continuamente, gerar novos dados, entregar os resultados à inteligência artificial e utilizar sua análise para decidir quais experiências deverão ser realizadas em seguida.

É uma mudança sutil na aparência, mas profunda no conceito: a inteligência artificial deixa de apenas analisar aquilo que a ciência já descobriu e começa a participar do processo utilizado pelos cientistas para descobrir coisas novas.