Milho, feijão, arroz, porcos e açúcar faziam parte da produção da antiga Jundiahy, numa época em que a alimentação estava diretamente ligada ao que se plantava e criava na região
Imagine entrar em uma casa de Jundiaí nas primeiras décadas do século XIX. Não havia supermercado, geladeira ou alimentos industrializados. Grande parte daquilo que chegava à mesa começava nas próprias roças, criações e pequenas propriedades espalhadas pela antiga vila.
E alguns ingredientes seriam bastante familiares a um jundiaiense de hoje.
Milho, feijão e arroz estavam entre os produtos cultivados na região. Havia também criação de porcos, produção de açúcar e circulação de farinha e toucinho. Documentos históricos mostram que Jundiaí possuía uma economia importante de produção de alimentos tanto para subsistência quanto para abastecer outros mercados.
O milho estava por toda parte
Se fosse preciso escolher um ingrediente para representar a alimentação da antiga Jundiahy, o milho seria um forte candidato.
A presença dele na região vinha de muito antes do século XIX. A própria história oficial do município registra que os povos indígenas que habitavam estas terras produziam milho e mandioca.
No final do século XVIII, documentos estudados pelo Arquivo Histórico de Jundiaí mostram que o milho predominava na produção agrícola da vila. Depois apareciam feijão, algodão, amendoim, arroz e fumo.
Essa importância continuou nas primeiras décadas do século XIX.
O milho servia à alimentação das pessoas, mas tinha outras funções essenciais: alimentava porcos e também os animais utilizados no transporte. Numa época em que mercadorias viajavam em lombo de mula, produzir milho significava também alimentar parte do sistema que fazia a economia circular.
Feijão, arroz e carne de porco
O feijão também tinha presença expressiva.
Um estudo baseado em documentação histórica encontrou cerca de 300 produtores de feijão em Jundiaí nos períodos analisados. Arroz igualmente aparece entre as culturas locais.
Já os porcos ocupavam espaço importante na economia e, consequentemente, no universo alimentar da população.
Em 1836, foram registrados 3.699 porcos criados por 211 produtores de Jundiaí. Parte significativa dessa criação estava concentrada em propriedades que utilizavam mão de obra escravizada.
Os animais não necessariamente terminavam na mesa dos próprios jundiaienses. Há evidências de que Jundiaí comercializava porcos vivos, inclusive com destino ao mercado da cidade de São Paulo. O toucinho também aparece entre os gêneros que circulavam pela região.
Uma alimentação ligada à terra
É difícil reconstruir exatamente o cardápio cotidiano de cada família jundiaiense há dois séculos. Os documentos históricos registram com muito mais facilidade aquilo que era produzido e comercializado do que a receita preparada dentro de cada cozinha.
Mas eles permitem enxergar os ingredientes disponíveis.
Milho, feijão, arroz, farinha, porcos, toucinho e açúcar faziam parte daquele universo. E a alimentação variava conforme a condição econômica e social de cada família.
Também é importante lembrar quem produzia esses alimentos. A agricultura jundiaiense daquele período estava profundamente relacionada ao trabalho de pessoas escravizadas. Em 1836, por exemplo, produtores que possuíam escravizados respondiam por aproximadamente 80% do feijão registrado e também por cerca de 80% dos porcos produzidos na localidade.
A Jundiaí da uva ainda estava por nascer
Há outra diferença interessante entre aquela mesa e a imagem gastronômica que Jundiaí possui atualmente.
A forte influência italiana que ajudaria a transformar a agricultura e a culinária locais ainda não havia chegado.
Foi somente nas últimas décadas do século XIX que a imigração italiana ganhou força. Em 1887, os primeiros 22 colonos italianos chegaram ao Núcleo Colonial Barão de Jundiaí. Ali, as famílias passaram a cultivar milho, feijão, arroz, batatas, legumes e frutas — com destaque especial para a uva.
A cidade que hoje celebra a uva e mantém uma culinária fortemente associada às tradições italianas nasceu, portanto, sobre uma camada alimentar muito mais antiga.
Há cerca de 200 anos, a mesa da antiga Jundiahy tinha outro protagonista.
Antes da uva, havia o milho.



